“Mercadoria” | Jaime Soares

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“Mercadoria” | Jaime Soares

Antes da aurora um sino toca ao longe. A janela do corredor abrira-se devagarinho e a madre oferecera uma reverência à imagem de Nossa Senhora. A imagem de Cristo brilhava na outra mesa. Há, com efeito, quem conheça ambientes de cortar à faca. A mãe fez o que pôde na vida, por forma a afastar a sua filha do inferno. Segundo a mãe, a vida de claustro é o presente de Deus para uma filha, que queria ser escritora. Ela estava a acordar e pé ante pé via letras na parede. Mais um dia. Uma cueca biquíni rosa velho foi lançada na direcção de uma caminha. Sem cerimónia. A livraria que recebeu a escritora era há minutos uma espécie de saguão no qual nada aparentava estar quieto. Javã ficou na fila da frente, já que podia ter mais hipóteses de perguntar alguma coisa à escritora. Mas era sempre um risco. Javã levou três livros debaixo do braço direito. Eram três livros da escritora sem o autógrafo. Javã encontrava-se de folga, tudo era feito lentamente. Os leitores preenchiam aquele espaço da livraria, assim como quaisquer exigências de um acontecimento cultural. Mas Javã queria romper aquele silêncio. Sem mais delongas. Javã pegou no telemóvel e viu se tinha mensagens por ler. Nenhuma mensagem. Depois, marcou o número do correio de voz. Nenhuma mensagem.
Source: Palavra comum

2020-03-24T06:51:42+00:00 24 / 03 / 2020|Palavra Comum|